Az Infinitum é um Sistema de Referência e Indexação de Azulejo, produzido e/ou aplicado em Portugal. Resulta de uma parceria entre a Rede Temática em Estudos de Azulejaria e Cerâmica João Miguel dos Santos Simões, núcleo de investigação do Instituto de História da Arte (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) e o Museu Nacional do Azulejo, tendo sido desenvolvido pela empresa Sistemas do Futuro [1]. Foi concebido para ser usado por investigadores, instituições, empresas, particulares e público em geral, assentando numa ideia de trabalho em rede que apela à participação activa de todos os interessados.

Um ano após a sua disponibilização em linha [2] [URL: http://redeazulejo.fl.ul.pt], os coordenadores do projecto mostram as potencialidades desta ferramenta de trabalho, ao mesmo tempo que fazem um primeiro balanço das actividades, anunciando ainda alguns dos desenvolvimentos que, a curto prazo, serão implementados. À equipa inicial foram-se juntando investigadores e instituições que, actualmente, colaboram para o crescimento do Az Infinitum. Esperamos que o presente texto possa contribuir para alargar ainda mais o debate em torno da azulejaria portuguesa e das boas práticas de inventário e investigação associadas.

O projecto Az Infinitum nasceu da necessidade de estudar a azulejaria portuguesa e/ou aplicada no nosso país, num sentido global, que pudesse inventariar não apenas as aplicações mas também catalogá-las do ponto de vista da sua composição e da articulação com a arquitectura, ou da autoria e processos de produção ou encomenda. Estas intenções, aqui expressas de forma breve, encerram, como facilmente se imagina, um desafio imenso face à riqueza e diversidade de soluções, que resultam de uma tradição de produção cerâmica plurissecular, a par do elevado e nunca contabilizado número de revestimentos que se conservam in situ um pouco por todo o país.

O Az Infinitum é um sistema em permanente actualização, que permite registar e confrontar dados relativos a imóveis, espaços, revestimentos cerâmicos, autorias, referências bibliográficas e documentais, imagens, etc., organizando-se, para já, em cinco grandes áreas: 1) In situ; 2) Autores; 3) Padrões; 4) Iconografia; 5) Bibliografia.

A área in situ reporta-se aos revestimentos cerâmicos que permanecem no local para o qual foram concebidos e que constituem o principal objectivo do presente projecto. A organização do inventário corresponde à disposição hierárquica dos espaços com revestimentos cerâmicos, organizados em árvore, do geral para o particular. Inclui ainda o cruzamento de informação com os inventários do património arquitectónico já existentes em Portugal, como é o caso do Sistema de Informação para o Património Arquitectónico – SIPA [Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana – IHRU] ou de outros tutelados por municípios, como é o caso de Ovar.

A iconografia identifica e cataloga os temas representados, utilizando o sistema de descrição de imagens Iconclass (www.iconclass.org). Estará disponível em breve a tradução para português dos cerca de 40000 termos que integram esta ferramenta de vocabulário controlado e a pesquisa no Az Infinitum passará a articular-se com o browser do próprio Iconclass.

A área referente aos padrões permite catalogar padrões e guarnições, relacioná-los entre si e identificar os locais onde os mesmos se encontram aplicados. Aos padrões do século XVII disponibilizados há um ano, foram-se juntando exemplares dos séculos XVIII [pombalinos], XIX e XX, que hoje totalizam quase trezentos registos.

O separador autores configura um dicionário de todos os intervenientes na realização de um revestimento cerâmico, desde o autor, o oleiro, o azulejador, o pintor ou a fábrica, baseado na documentação que vai sendo identificada. Por fim, a bibliografia disponibiliza uma lista comentada de referências com interesse para a área da azulejaria, e que suportam as áreas assinaladas.

Todo o sistema confere especial atenção ao vocabulário controlado, dispondo de listas definidas localmente e, sempre que possível, de standards internacionais. Por outro lado, assenta num banco de imagens, no qual a fotografia assume uma dupla função de grande importância. Para além do registo documental, disponibilizam-se ainda imagens manipuladas digitalmente, que simulam montagens de revestimentos e, no caso dos padrões, da sua aplicação em zonas mais extensas.

Assim, e partindo de uma ideia alargada de inventário, este projecto permite organizar a informação e disponibilizá-la. Mas permite, também, colocar perguntas e fazer as pesquisas subsequentes, de forma a obter respostas susceptíveis de produzir novo conhecimento, assim contribuindo para o estudo e investigação da azulejaria portuguesa. Na verdade, esperamos que esta possa vir a ser uma proposta de sistematização de conhecimento a ter em conta e que, num futuro próximo, contribua para potenciar uma perspectiva renovada sobre a história do azulejo em Portugal.

Para além da preocupação de colaborar com outras instituições e utilizar os conteúdos em projectos de divulgação, como é o caso da Rota do Azulejo no Alentejo, o Az Infinitum procura também afirmar-se na área da salvaguarda, contribuindo para dar a conhecer o património azulejar e, consequentemente, para a sua preservação. Na verdade, só é possível proteger o que se conhece.

As sugestões e críticas que nos foram chegando ao longo do último ano, por parte dos utilizadores do Az Infinitum, estarão na base de uma remodelação, em termos de pesquisas e de disponibilização de informação, que irá decorrer nos próximos meses. Às cinco áreas enunciadas juntaremos uma outra, dedicada à gravura, que permitirá sistematizar a informação sobre fontes gravadas, relacionando-a com os revestimentos.

Paralelamente, encontra-se em preparação um guia de inventário de azulejo in situ, desenvolvido em conjunto com os nossos parceiros, onde se partilha a experiência acumulada ao longo destes anos. Com este guia pretendemos motivar a realização de mais inventários de azulejo, cujos dados possam ser facilmente integrados ou relacionados com o Az Infinitum. Este documento estará disponível para discussão a partir de Outubro.

Por fim, queremos apostar na área colaborativa, disponibilizando um perfil no facebook e um blogue, este último direcionado para os seminários de debate que começaremos a organizar a partir de Novembro.

A disponibilização de bases de dados digitais possibilita o acesso à informação por um muito maior número de pessoas, potenciando o cruzamento de dados. No caso da azulejaria portuguesa, tão permeável às influências internacionais, esta pode ser uma via com grande impacto no avançar da descoberta de influências e de abertura ao diálogo além-fronteiras. Todavia, tal só será possível com a tradução do sistema para inglês. Com este objectivo de mais longo prazo, mas essencial para divulgar o azulejo como património diferenciador da cultura portuguesa no mundo, terminamos esta reflexão, apelando, uma vez mais, à participação e colaboração de todos os interessados para que o Infinitum se torne, a cada dia, mais próximo.

 Rosário Salema de Carvalho, Alexandre Pais

Rosário Salema de Carvalho

Coordenadora e investigadora da Rede Temática em Estudos de Azulejaria e Cerâmica João Miguel dos Santos Simões (RTEACJMSS), núcleo de investigação do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É doutorada em História da Arte, com a tese intitulada A pintura do azulejo em Portugal no primeiro quartel do século XVIII. Autorias e biografias – um novo paradigma [2012]. É bolseira de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Tem desenvolvido investigação na área do património e, principalmente, na área da Azulejaria Portuguesa, com vários artigos publicados.

Alexandre Pais

Investigador do Museu Nacional do Azulejo (1993-2004 e novamente desde 2009) e doutorado em Artes Decorativas pela Universidade Católica Portuguesa (2012), com uma tese dedicada à produção de faiança portuguesa entre 1550 e 1750. Trabalhou no Palácio da Pena, em Sintra (1987-1993) e no Instituto Português de Conservação e Restauro (2004-2009). Leccionou na Escola Superior de Artes Decorativas da Fundação Ricardo Espírito Santo, Universidade Católica Portuguesa e Escola de Conservação e Restauro, Sintra, e co-orienta várias teses de mestrado e doutoramento. Publicou vários artigos e revistas sobre património artístico, principalmente sobre azulejos portugueses e cerâmica, e é membro de vários grupos de investigação.

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[1] A equipa é coordenada por Rosário Salema de Carvalho e Alexandre Pais (MNAz), e constituída por Ana Almeida, Inês Aguiar, Isabel Pires, Lúcia Marinho e Patrícia Nóbrega.

[2] A apresentação pública deste projecto decorreu no âmbito da inauguração da exposição Um gosto português. O uso do azulejo no século XVII, no Museu Nacional do Azulejo, a 4 de Julho de 2012. Todavia, a estrutura, a investigação e carregamento de dados do Az Infinitum remonta a 2009.

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