Silêncio, que se vai entrar na biblioteca


Breve resumo: Durante demasiado tempo foi imposta a ideia de que a biblioteca é um local calmo e sossegado exclusivamente para leitura e estudo. Acessível, e para usufruto, de apenas uns poucos eruditos. Esta reflexão pretende contribuir para a desconstrução deste preconceito.
Breve nota curricular do autor: Licenciado em Ciências da Informação e da Documentação. Bibliotecário, actualmente a exercer na Biblioteca Municipal de Loulé. Profissional com 22 anos de experiência em bibliotecas públicas municipais. Entusiasta das tecnologias da informação e da inteligência artificial aplicadas aos serviços de informação.

Artigo de opiniao Imagem ilustrativa IA

A biblioteca pública em Portugal nunca sairá da crise em que está mergulhada, praticamente desde sempre, enquanto perdurar a ideia de que é um espaço de estudo silencioso, rígido e elitista. A culpa de tal acontecer? Em parte, dos próprios bibliotecários.

De facto, tem-se verificado um grande esforço para contrariar a ideia generalizada de que uma biblioteca é um lugar soturno e cheio de regras onde impera o silêncio. Aliás, alguns de nós conhecerão bibliotecas que não se enquadram na descrição que acabo de fazer. Mas queria obter a vossa atenção para a questão do ruído nas bibliotecas.

Enquanto agente cultural promotor do livro, da leitura e do acesso democratizado à informação, a biblioteca pública pretende ser um dos pilares centrais para o desenvolvimento pessoal e cultural dos membros da comunidade que serve promovendo diversas literacias, capacitando e convidando à participação activa na vida cívica.

Os frequentadores habituais destes espaços terão, também, a sua quota-parte de responsabilidade no actual panorama acústico, digamos assim, das bibliotecas públicas. Foi-lhes incutida a ideia de que não podem fazer barulho na biblioteca e, consequentemente, assim o esperam e exigem.

Algumas pessoas dirão ah e tal, mas as bibliotecas têm de corresponder às expectativas dos utilizadores e estes querem silêncio. Calma. Apesar de válido, este argumento está, em certa medida, errado.

Já agora, a propósito dos termos usados para designar os frequentadores ou visitantes das bibliotecas, há quem abomine a designação de «utilizador» ou «utente», preferindo o termo «leitor». Questão menor e meramente nomenclatural que deixarei para os linguistas.

Quantas vezes olhamos acusadoramente para alguém cujo comportamento não nos pareceu adequado ao espaço onde nos encontramos?

No caso das bibliotecas é aquele estudante, na mesa ao lado, que confidencia ao colega a sua paixoneta pela miúda da turma de artes e decide enumerar todas as suas qualidades em vez de estar calado a estudar.

É aquela pessoa que vem a correr da casa de banho para atender, criminosamente, o telemóvel que toca estridentemente (e durante demasiado tempo) e que mais parecia estarmos num concerto de rock.

É a turma do 1º ciclo que entra ruidosamente e uma das crianças desata a chorar, duas a berrar, outra perde-se e vai parar à sala de adultos, a professora a tentar desesperadamente controlar os vinte mil alunos à sua guarda enquanto os manda calar.

E, entretanto, o senhor já de uma certa idade que estava calmamente a ler o jornal sai porta fora, discretamente, porque o equilíbrio frágil do seu universo foi perturbado.

Ah e tal, tem de imperar o senso comum e achar-se o meio-termo. Talvez. Mas o senso comum não é assim tão comum, não é igual para todos, e depende muito da expectativa. O potencial frequentador da biblioteca não quer silêncio, mesmo que não o saiba.

Não estranhamos ver um grupo de jovens que conversam animadamente na rua, mesmo que estejam a engendrar algum plano maroto. Não estranhamos aquela pessoa que se cruza connosco no passeio e atende o telemóvel, nem fazemos juízos de valor acerca do toque de chamada escolhido (bem, esta parte é bastante discutível). Faz parte do dia-a-dia daquela professora tentar frustradamente controlar os vinte mil alunos à sua responsabilidade, e às vezes parecem trinta mil. Também nunca vemos o senhor de idade que lê o jornal ficar incomodado com o frenesim matinal de um qualquer café da esquina.

Mas vemos isto tudo a acontecer em simultâneo em qualquer rua movimentada, em qualquer centro comercial, e por aí fora.

Por que raio na biblioteca tem de ser diferente? É aqui que reside o grande equívoco. Não tem de ser diferente. Pelo contrário, a biblioteca deve ser um espaço onde caibam todas estas pessoas ao mesmo tempo e onde se sintam bem em conjunto.

Durante demasiado tempo foi imposta, por parte dos bibliotecários e de todos os profissionais que nelas trabalham, a ideia de que a biblioteca é um local calmo e sossegado exclusivamente para leitura e estudo. Acessível, e para usufruto, de apenas uns poucos eruditos. Esta ideia está ultrapassada, e este artigo não mais é do que um humilde alerta para aquilo que eu defendo que devem ser estes espaços.

Se vos perguntar qual a primeira coisa que vos ocorre quando pensam em bibliotecas, aposto que a maioria de vós ainda responderia que é um local silencioso e austero, onde a senhora que está na secretária atira um shiu! por tudo e por nada. Dependendo do inquirido, a senhora fria e altiva de cabelo apanhado, óculos garrafais e olhar acusador, pode já ter uma certa idade ou então é uma moça nova, com vestes mais coloridas, também de óculos, mas nova e sexy. Verdade?

Pois isso acabou. O paradigma está a mudar ou, pelo menos, é isso que se quer há muito tempo. Metam isto nas vossas cabeças.

É possível dissipar o nevoeiro que paira sobre as bibliotecas com uma mudança de mentalidade. Demora o seu tempo, é verdade. Mas está a demorar demasiado tempo.

Esta é uma mudança necessária na biblioteca pública e que tem de ser comunicada. Mas essa estratégia precisa, primeiro, de ser realmente entendida, interiorizada e defendida por todos aqueles que nela trabalham.

De uma vez por todas, há que desconstruir estes preconceitos:
A biblioteca pública não é um local silencioso.
A biblioteca pública não é um local de estudo.
A biblioteca pública não é um local de leitura.
Mas, naturalmente, pode ser tudo isto.
Afirmações infames? Não acho. E se fazem alguma comichão, só prova a pertinência desta minha reflexão.
Pensemos a biblioteca como sendo a congénere literária do centro comercial, por exemplo. A biblioteca é o shopping do conhecimento, da informação, da cultura, da cidadania… Local dinâmico e movimentado onde acontece todo o tipo de actividades para todas as idades e interesses – muitas delas barulhentas e divertidas e nada enfadonhas como é costume pensar-se.
Há quanto tempo não visita a biblioteca do seu município? Venha descobrir o que temos para si. E o melhor? Não paga nada!

Duarte Santos | 07-12-2025
O texto não segue as normas do novo acordo ortográfico

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