Exposição COMUNICAR. Egídio Santos

Com o surgimento e massificação das tecnologias de informação e comunicação, entre as quais se destaca a internet, a utilização das novas ferramentas digitais orientou-se mais para a troca de mensagens do que para a pesquisa de informação.

O alargamento do acesso e a diversidade de plataformas conduz à dispersão da atenção das pessoas pelas mesmas, à aceitação de interrupções constantes, ao desenvolvimento da capacidade de poder fazer várias tarefas em simultâneo. Esta nova capacidade é já internacionalmente reconhecida como multitasking. As permanentes distrações conduzem à redução da capacidade de concentração, a crescentes dificuldades de nos focarmos no raciocínio individual e de sermos pensadores atentos, reflexivos e críticos. Apesar das reconhecidas potencialidades do cérebro humano no sentido da adaptação aos novos desafios é também reconhecida a importância da atenção para a formação da memória e para o pensamento conceptual. A possibilidade de acesso imediato à informação online conduz à ideia de que não precisamos de nos lembrar dos factos nem de os arquivar na nossa memória de longo prazo. Tudo o que precisamos a nível pessoal e profissional estará à distância de um click.

“A questão é que a memória pessoal é diferente daquilo que está online. Muita da riqueza do nosso pensamento vem da nossa capacidade de deslocar informação – fatos, emoções – da nossa memória de curto prazo para a nossa memória de longo prazo. É através desse processo – daquilo a que os psicólogos chamam “consolidação da memória” – que ligamos aquilo que sabemos, aquilo que aprendemos, a nossa experiência com outros fatos e experiências. E são essas conexões, essas conexões pessoais que fazemos entre a informação que está na nossa memória, que nos permitem pensar conceptualmente, ir além dos pequenos bocados de informação e fatos que os computadores fornecem e formar um conhecimento pessoal único (…).” (1)

Constituindo-se os museus como espaços de memórias por excelência, estes novos contextos constituem permanentes desafios à sua ação de investigar, conservar, comunicar e democratizar informação relacionada com o seu património.

O Museu dos Transportes e Comunicações (MTC), sedeado no centenário e neoclássico Edifício da Alfândega Nova do Porto, tem como entidade tutelar a Associação para o Museu dos Transportes e Comunicações (associação privada, sem fins lucrativos, de utilidade pública e constituída em 1992) e assume como sua a missão de “difundir o conhecimento sobre o papel dos transportes e comunicações na evolução da sociedade moderna bem como valorizar a memória do lugar – Edifício da Alfândega Nova do Porto.”

É nesta missão que se alicerçam os objetivos que norteiam a ação do Museu há mais de duas décadas e que são:

  • preservar um valioso património na área dos transportes e comunicações que importa recuperar, preservar e divulgar;
  • preservação de infraestruturas de reconhecido interesse histórico, relacionadas com os transportes e as comunicações;
  • criação e manutenção de um centro de documentação e informação sobre ambas as temáticas;
  • desenvolvimento junto do público de novas formas de interesse quanto à problemática dos transportes e comunicações

Assumindo a função social do Museu enquanto ativo e estratégico parceiro no processo de construção de uma cidadania cada vez mais informada e atuante, o MTC aposta igualmente na construção de projetos expositivos relevantes para os mais diversos públicos e que os cativem para momentos ímpares de provocação, conhecimento, reflexão e atuação transformadora sobre a realidade circundante através de múltiplas estratégias de mediação cultural: visitas autónomas, visitas guiadas, oficinas, experiências interativas multissensoriais, percursos exploratórios dos espaços interiores e exteriores do Edifício, entre outras. A ação do Museu alicerça-se numa postura de acessibilidade e inclusividade, traduzida pelas caraterísticas físicas, cognitivas, emotivas que promove através de uma atitude de flexibilidade e proatividade.

No contexto do programa cultural que desenvolve para todos os públicos destacam-se as exposições: COMUNICAR, O motor da República: os carros dos Presidentes, O automóvel no espaço e no tempo, Metamorfose de um Lugar: Museu das Alfândegas e a Visita Interpretativa ao Edifício da Alfândega (informação complementar em www.amtc.pt).

No âmbito das suas temáticas, o Museu integra e participa em diversas redes de museus, ao nível nacional (MC2P; Rede Portuguesa de Museus; BAD – Bibliotecas, Arquivos e Documentação), como internacional (IATM – International Association of Transport and Communications Museums; IACM – International Association of Customs Museums).

A tecnologia ocupa um papel de relevo, desde logo presente nas temáticas do Museu (transportes, comunicações), mas também enquanto suporte de trabalho na sua ação de bastidores (gestão de coleções, serviços educativos, gestão documental), suporte de conteúdos expositivos (audiovisuais, interativos, multimédia), como também na comunicação com os públicos através das redes sociais da web 2.0, alimentando propostas de participação e permanente desafio. Contudo, a tecnologia é entendida na perspetiva de ferramenta que permite complementar e ampliar a comunicação com públicos diversificados. Através da mediação esses públicos são permanentemente desafiados a explorar, a refletir, a experienciar de modo a que a visita se transforme num momento relevante e reforçador para a memória pessoal e coletiva. Nesta contínua ação de promotor de experiências significativas com os seus públicos o Museu revê-se como um sistema aberto com inúmeros inputs e outputs ao nível da recolha, registo, ativação e mediação de informação e documentação.

A propósito das suas coleções e temáticas, o Museu pesquisa e recolhe memórias diversificadas (bibliografia, filmografia, testemunhos orais) que integra em vários formatos e no âmbito dos diferentes territórios onde atua e com os quais estabelece conexões.

Ao nível dos territórios de proximidade “reais” podemos identificar a conceção e construção de exposições (textos, vídeos, documentos, experiências sensoriais, folhetos, QRcodes), a conceção de narrativas de suporte quer à função de registo museográfico quer à função de comunicação e mediação levada ao terreno pelo serviço educativo, a produção de materiais de divulgação (folhetos, catálogos, edições especializadas).

Ao nível de territórios de proximidade “virtuais” apontamos a partilha de informação através de meios próprios do Museu: site, blog da exposição COMUNICAR, facebook, twitter, a produção e partilha de conteúdos através de plataformas colaborativas como Porto24, plataformas da Câmara Municipal do Porto, plataformas da DGPC, entre outras.

Biblioteca do Museu da Alfândega. Arquivo AMTC

Neste contexto, assume particular relevo a Biblioteca do Museu da Alfândega. Ocupando um dos espaços nobres do edifício, após renovação sob projeto da autoria do arquiteto Eduardo Souto de Moura, constitui um espaço onde desde sempre coabitaram documentos de arquivo – fruto da atividade da instituição aduaneira – e documentos de biblioteca que, a título de depósito, apreensão pelos serviços ou como instrumento de apoio às suas funções, aí foram dando entrada. A abertura ao público, em maio de 2006, constituiu uma mais-valia que veio possibilitar o acesso a documentação e informação sobre diversas áreas do conhecimento. O principal objetivo da Biblioteca é a disponibilização de documentação acessível e a partilha de informação pertinente e fiável aos seus utilizadores. Dentro do seu acervo, constituído por 25000 exemplares, encontram-se documentos resultantes da atividade aduaneira como são exemplo os livros de registo dos exportadores de Vinho do Porto entre outros documentos manuscritos provenientes de outros postos aduaneiros do norte do país. Quanto ao acervo bibliográfico predominam publicações das áreas da economia, finanças públicas, direito, indústria, engenharia, química, etc. Integrado no mesmo espaço encontramos o acervo documental do Centro de Documentação e Informação do Museu dos Transportes e Comunicações (publicações temáticas nas áreas dos transportes, comunicações, história da cidade do Porto e Edifício da Alfândega, catálogos de exposições, etc). Entre os serviços disponibilizados destacam-se a consulta presencial com apoio e orientação dos utilizadores, o serviço de referência presencial ou por via eletrónica, os empréstimos domiciliários e interbibliotecários, o acesso a recursos temáticos Web através de ligação ao site www.amtc.pt (catálogo da Biblioteca, bases de dados, revistas on-line). Para assegurar o acolhimento e orientação o mais personalizada possível quanto à consulta pretendida, aconselha-se um contacto prévio através do endereço museu@amtc.pt . A Biblioteca do Museu da Alfândega do Porto, alojada em amplos e luminosos espaços com vista para o rio Douro, é igualmente um espaço aprazível de estudo e reflexão.

Em resumo, o Museu dos Transportes e Comunicações, a propósito das suas coleções e temas, pesquisa informação diversificada que trabalha no contexto da sua atividade e que partilha com os seus públicos internos e externos através de conexões reais e virtuais. Contribuir para a construção de uma cidadania cada vez mais informada e ativa no que ao papel dos transportes e comunicações diz respeito marca o posicionamento e a ação do Museu na atual sociedade da informação e comunicação.

(1) Nicholas Carr in “A Internet mudou a nossa percepção do tempo”, entrevista a Joana Gorjão Henriques, Jornal PÚBLICO 28.11.2012 http://www.publico.pt/tecnologia/noticia/a-internet-mudou-a-nossa-percepcao-do-tempo-1573458

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