Recensão crítica ao livro de Selena Wisnom – A Primeira Biblioteca da Humanidade.

A Primeira Biblioteca da Humanidade Selena Wisnom
Selena Wisnom – A Primeira Biblioteca da Humanidade. 1.ª ed. Lisboa : Desassossego. Livros para Pensar, 2025.

Em novembro de 2025, é editado pela Desassossego, chancela do Grupo Saída de Emergência, o livro A Primeira Biblioteca da Humanidade – tradução portuguesa do título original, The Library of Ancient Wisdom: Mesopotamia and the Making of History (editado pela Penguin Books, em 2025).

A autoria do livro é de Selena Wisnom, professora na Universidade de Leicester, especialista em Assiriologia e na herança do antigo Iraque, especificamente, nas línguas, literatura e história intelectual da Mesopotâmia. Do seu currículo, ressalta ainda, a autoria de três peças de teatro no contexto da antiga Assíria, incluindo, Ashurbanipal: the last great king of Assyria, encenada na Crypt Gallery, em Londres, em 2019, para além de diversos artigos e livros, com destaque para, Enuma Elish: the Babylonian Epic of Creation, publicado em 2024,  e Weapons of Words: Intertextual Competition in Babylonian Poetry.A study of Anzû, Enūma Eliš, and Erra and Išum, publicado em 2020.

O livro A Primeira Biblioteca da Humanidade permite-nos conhecer a organização, missão e conteúdo das tabuinhas da biblioteca de Nínive, constituída pelo rei assírio Assurbanípal, governante do império mesopotâmico entre 669 e 631 a.C. (século VII a.C.). Trata-se, da maior e primeira biblioteca do mundo antigo, antes da biblioteca de Alexandria, situada no império mesopotâmico que cobria uma área geográfica extensa do «crescente fértil», onde hoje, se situa o Iraque e que, também, abrangia a Síria, o Levante, partes da Turquia e o Sudoeste do Irão.

The Library of Ancient Wisdom: Mesopotamia and the Making of History, de Selena Wisnom, editado pela Penguin Books, em 2025.
The Library of Ancient Wisdom: Mesopotamia and the Making of History,de Selena Wisnom, editado pela Penguin Books, em 2025.

Embora demasiado minucioso na descrição, falamos de um livro magnífico e rigoroso sobre a biblioteca de Nínive, igualmente, conhecida por biblioteca de Assurbanípal,  com a exploração dos conteúdos das tabuinhas em escrita cuneiforme, enterradas durante milénios após um incêndio devastador, em 612 a.C., mas algumas, recuperadas através de escavações arqueológicas iniciadas no século XIX e, hoje, depositadas e conservadas no Museu Britânico, em Londres. A primeira descoberta foi o “Palácio sem Rival” de Senaqueribe, avô de Assurbanípal, descoberto pelo arqueólogo britânico Austen Henry Layard e pelo seu assistente local, Hormuzd Rassan, ao serviço do Museu Britânico, entre 1847 e 1851. Em 1850, diversos arqueólogos descobriram outra sala repleta de tabuinhas, a que Layard apelidou de “câmara dos registos”, onde muitas tabuinhas tinham inscrito “Palácio de Assurbanípal, rei do mundo, rei da Assíria”.

A biblioteca de Nínive, assemelhava-se a uma coleção privada, reunida por e para o seu rei e os seus sábios. Não era aberta ao público, as tabuinhas não eram emprestadas, mas era uma verdadeira fonte de conhecimento da cultura mesopotâmica, com destaque para os assuntos do cósmico e a influência omnipresente dos deuses, os manuais de magia, de medicina e de adivinhação, recorrendo a meios que vão desde as entranhas de animais às estrelas, poemas e obras literárias, relatos de guerra e de lamentações.  A biblioteca reunia ainda outras bibliotecas, como a de Sargão II (bisavô de Assurbanípal), com a descoberta de muitas tabuinhas com a designação “Palácio Sargão”, para além de diversos arquivos régios.  

Parafraseando a capa do livro é: «uma viagem inesquecível à cultura mesopotâmica e à criação do mundo moderno», assente no saber do império assírio que dividia-se em cinco áreas principais: astrologia, exorcismo, medicina, adivinhação a partir de entranhas de animais (extispício) e lamentações. Como define a autora, «a Mesopotâmia é, literalmente, o lugar onde a História começou. Os escribas mesopotâmicos escreviam em placas de argila, um meio simples e pouco dispendioso que também provou ser capaz de resistir ao tempo (…). As placas com escrita cuneiforme documentam quase todas as facetas da existência humana, desde correspondência entre pessoas comuns até aos cálculos de matemática muito avançada» (Wisnom, 2025, 22).

O livro contabiliza quase 400 páginas e encontra-se dividido em dez capítulos (pp. 43-300) sobre os conteúdos das tabuinhas de escrita cuneiforme da biblioteca de Assurbanípal. Tem a particularidade de apresentar a seguir à folha de rosto, uma cronologia geral da história da Mesopotâmia (pp.8-9); uma cronologia dos acontecimentos (pp. 10-12) e as personagens históricas, como, a família (pp. 13-15), incluindo, Assurbanípal (rei erudito que organizou a biblioteca de Nínive e governou entre 669 e 631 a.C.); Sargão II (bisavô de Assurbunípal); Senaqueribe (avô de Assurbanípal); Naquia (avó de Assurbanípal); Assaradão (pai de Assurbanípal) ou os sábios Balasi (sábio principal de Assurbanípal); Ada-Shumu-Utsur (exorcista principal de Assurbanípal); Urad-Nanaya (físico de Assaradão); Dannaya (mulher de um dos adivinhos de palácio); Nabu-Zuqup-Kenu (sábio do serviço de Sargão II); Nabu-Zeru-iddina (sacerdote de lamentações) e ainda, um Mapa com a extensão do Império Assírio durante o reinado de Assurbanípal (pp. 16-18).   Contém ainda, um epílogo sobre a perenidade da cultura cuneiforme (pp. 301-318), após a Biblioteca ter sofrido, em 612 a.C, um incêndio com destruição das tabuinhas; um ensaio bibliográfico (pp. 319-344); um guia das fontes primárias (pp. 345-348) e uma bibliografia (pp. 349-371), com as principais fontes documentais utilizadas.

O capítulo 1: A Arte dos escribas (pp. 43-65), retrata de forma brilhante o saber da escrita cuneiforme como fonte de prestígio, uma vez que era a chave para a sabedoria oferecida pelos próprios deuses e não apenas para a comunicação. As tabuinhas eram uma importante fonte de conhecimento prático a que se podia recorrer em momentos de doença, de dor, de preocupação com o futuro, em momentos de guerra, de desespero pessoal e, em decisões difíceis, contendo um nível extraordinário de pormenores sobre os ritmos, os prazeres e os desafios da vida quotidiana para a elite assíria.

O capítulo 2: O Poder dos Deuses (pp. 66-91), aborda os seus deuses e as suas responsabilidades.

O capítulo 3: Magia e Feitiçaria (pp. 92-116), descreve como na Mesopotâmia, a magia era racional e extraordinária, através dos pedidos aos deuses. Falamos de um mundo de exorcistas, chegando até nós o Manual do Exorcista, que inclui rituais dos tempos, encantamentos médicos, rituais anti bruxaria, rituais de purificação, encantamento para expulsar demónios, preces formais, a adivinhação e as prescrições médicas.

O capítulo 4: Tratar a doença (pp. 117-146) reflete como na Mesopotâmia, a medicina era essencialmente holística. Grande parte dos habitantes recorria a medicamentos de ervas que mostravam eficácia, apesar da componente mágica ter a mesma importância e equivalência.

O capítulo 5: Ler os sinais (pp. 147-165) aborda o extispício como uma das ciências babilónicas fundamentais.

O capítulo 6: Mensagem nos astros (pp. 166-194) descreve como os Mesopotâmicos acreditavam que os deuses estavam continuamente a enviar-lhe sinais, não apenas dos céus, mas também em acontecimentos incomuns que ocorriam na terra. A título de exemplo, os astrólogos do rei observavam todas as noites o céu, examinando a paisagem celestial sempre em mudança.

O capítulo 7: Literatura (pp. 195-221) exemplifica, entre outros, A Epopeia de Gilgamesh (fonte de sabedoria e de inspiração para os reis assírios, que se viam à imagem do monarca lendário Gilgamesh), Atrahasis ou as Façanhas de Ninurta, como poemas acadianos da coleção régia, baseados em antigas tradições sumérias que evoluíram durante os séculos da história da Mesopotâmia. A literatura suméria é extremamente rica, abrangendo mitos, hinos de louvor aos deuses, aventuras de reis lendários, lamentações sobre cidades destruídas, provérbios, poemas de debate e sátiras. A título de exemplo, um dos textos épicos que sobreviveu foi as Façanhas de Ninurta, poema traduzido para acadiano, com 726 linhas sobre o drama e emoções do deus Ninurta – um dos mais importantes da Mesopotâmia.

O capítulo 8: A Guerra (pp. 222-250) demonstra como a Assíria era um estado alicerçado no poderio militar e a guerra tinha sido sempre parte central da sua ideologia. O reinado de Assurbanípal (iniciado em 669 a.C.), surgiu no poder de uma série de conquistas que tinham começado duzentos anos antes.

O capítulo 9: Lamentações (pp. 251-274) reflete como os Mesopotâmicos tinham muitas lamentações para ocasiões diferentes, desde o âmbito mais pessoal ao formal. As lamentações também tiveram expressão em formas literárias, através de poemas sumérios e acadianos.

O capítulo 10: Um dia na vida de Assurbanípal (pp. 275-300), último capítulo do livro aborda a vida do rei e os seus passatempos. Através das tabuinhas da Biblioteca ficamos a conhecer a vida do rei, desde assuntos quotidianos, cobrança de impostos, contratações, despedimentos e passatempos, incluindo, a caça, muito praticada pelos reis assírios.  

Após os capítulos, o livro apresenta-nos um epílogo: A perenidade da cultura cuneiforme (pp. 301-318), onde é aludido como a biblioteca foi destruída em 612 a.C., através de um incêndio quando os Babilónios saquearam Nínive. Após a conquista de Alexandre, a Babilónia passou a fazer parte do mundo grego.  Contém ainda, um ensaio bibliográfico (pp. 319-344) sobre as fontes documentais utilizadas, incluindo, os textos conservados nas tabuinhas da biblioteca de Assurbanípal e outros textos cuneiformes de inegável importância. De salutar que, neste ensaio, a autora Selena Wisnom descreve por cada capítulo, a bibliografia de recurso e recomenda outras leituras complementares sobre as temáticas abordadas.

No Guia de fontes primárias (pp. 345-348), Selena Wisnom refere ainda as edições disponíveis online, de modo, a que os leitores consultem, como por exemplo, a página Web do ORACC (Open Richly Annotated Cuneiform Corpus, https://oracc.museum.upenn.edu); a página web da Electronic Babylonian Library (eBL,  https://www.ebl.lmu.de/library) ou o Electronic Text Corpus of Sumerian Literature (ETCSL, https://etcsl.orinst.ox.ac.uk), projeto da Universidade de Oxford, com cerca de quatrocentos textos literários sumérios.  Por último, o livro inclui a bibliografia (pp. 349-371).

Em suma, trata-se de um excelente livro escrito por Selena Wisnom, historiadora, assirióloga e especialista na interpretação das fontes culturais mesopotâmicas, que nos apresenta um retrato brilhante da antiga Mesopotâmia, um lugar que testemunhou muitos marcos históricos na história mundial, com algumas inovações e desenvolvimentos – ao nível da urbanização, invenção da escrita (cuneiforme), contabilidade, matemática, literatura e nos deixou como legado a primeira biblioteca da humanidade. Um livro cativante e notável sobre o conteúdo da biblioteca do rei assírio Assurbanípal, a Biblioteca de Nínive.

Ana Margarida da Costa
Mestre em História, Bibliotecária e Arquivista

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