O desenvolvimento tecnológico proporcionado pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e o aparecimento de novas formas de comunicação e acesso à informação, a par com a sua ubiquidade originaram mudanças, de uma maneira geral, na nossa sociedade e, em particular, nas Instituições de Memória [1] – Arquivos, Bibliotecas e Museus.

As Instituições de Memória têm como objetivos principais a preservação e a disponibilização das suas coleções a um público mais alargado do que aquele que as visita. Estas preocupações traduziram-se em inúmeros projetos associados à digitalização dos seus acervos. Contudo, a organização, bem como a representação da informação eletrónica continuaram a ser realizadas de forma similar às adotadas relativamente à informação disponível em suportes ditos tradicionais. Neste cenário surgiram vários desenvolvimentos na organização e representação da informação, de modo a incluir os vários desenvolvimentos tecnológicos e proporcionar a sua interoperabilidade (Sure e Studer, 2005).

A definição interoperabilidade, no entanto, ainda não é consensual entre a comunidade científica. A norma IEEE STD 610.122 define-a como “(…) a capacidade de dois, ou mais sistemas ou componentes, permitirem a troca de informação” (apud Baïna, Panetto e Morel, 2006). Paul Miller (2000), baseando-se no trabalho desenvolvido pela UKOLN – United Kingdom Office for Library and Information Networking [2], afirma que é a capacidade dos sistemas ou aplicação que interagem com outros sistemas ou aplicações têm para poder trabalhar em comum, de uma forma unitária sem que, para isso, haja necessidade de um esforço adicional. Acrescenta que, para que isso aconteça, as organizações deverão ser dotadas de uma boa gestão da informação de forma a garantir que os seus sistemas, procedimentos e cultura, consigam tirar o maior proveito da troca e reutilização da Informação, tanto a nível interno como externo. A UKOLN considera, ainda, que para tal, deverão ser seis as áreas de intervenção que, de modo interligado e em conjunto, formam a interoperabilidade desejada. Em específico, as componentes técnica, semântica, entre as comunidades, política/humana, legal e internacional.

O desenvolvimento das normas para o armazenamento, representação, transporte e comunicação contribuíram de forma marcante para a interoperabilidade técnica. Efetivamente, a metainformação introduzida nos formatos [3] para que possa ser descodificada pela máquina, é encapsulada num documento XML. Para definir a estrutura, conteúdo e semântica dos documentos XML é-lhes acrescentado um XML Schema[4] (qualificadores legíveis pela máquina) associados a cada etiqueta XML. São exemplo o MARCXML, o EAD XML DTD – Encoded Archival Description Document Type Definition, o METS – Metadata Encoding & Transmission Standard, o PREMIS – PREservation Metadata : Implementation Strategies, o CDWA Lite XML schemaCategories for the Description of Works of Art Lite , o Simple Dublin Core XML schema, o Qualified Dublin Core XML schema, o VRA Core 4.0 XML schema, ou ainda e mais recentemente, a representação da metainformação em formatos independentes dos sistemas de informação, em open data. A comunicação é realizada através de protocolos, como são o caso do protocolo Z39.50 (pesquisa distribuída) ou o OAI-PMH[5]Open Archive Iniciative Protocolo Metadata Harvesting (a metainformação é recolhida de um ou de vários sistemas de informação que disponibiliza para ser acedida pelos vários fornecedores de serviços – OAI Service Provider).

Os trabalhos realizados pelo consórcio W3C, na área da Web semântica, foram os que mais contribuíram para a desenvolvimento da segunda componente. No respeitante à sua aplicabilidade na Ciência da Informação, os grupos pertencentes à arquitetura estratificada e de enriquecimento da informação da Web semântica [6] , podem encontrar a seguinte contextualização:

A nível do 1.º grupo Uddin e Janecek (2007) propõem, com base em estudos já efetuados em portais comerciais, interligar um sistema de classificação de facetas com ferramentas da Web semântica (XML/RDF) com o objetivo de melhorar a organização, acesso e recuperação da informação.

 A nível do 2.º grupo Antoine Isaac et al. (2008) aborda a potencialidade do uso da SKOS  [7] para permitir a interoperabilidade semântica no domínio do património cultura e otimização do acesso em coleções heterogéneas.

Neste contexto, a metainformação das instituições de memória tornou-se mais visível e a fronteira entre as mesmas, mais ténue. Neste sentido, e com o objetivo de disporem num único modelo os pontos de acesso, obtidos pela descrição e conteúdo das unidades de informação, surgem os modelos concetuais [8] FRBR – Functional requirements for Bibliographic Records, CIDOC CRM – Comité International pour la Documentation : conceptual Reference Mode [9] , FRAD – Functional Requirements for Authority Data, FRSAD – Functional Requirements for Subject Authority Data e, ainda em versão draft o FRBRoo- Functional Requirements for Bibliographic Records – object oriented. No que concerne a contextos de uso incluem-se o repositório open source Greenstone (Buchanan, 2006), o OCLC Worldcat ou ainda o Austlit (Ayres, 2005). No que respeita aos projetos em curso destacam-se os casos do: FAST: Faceted Application of Subject Terminology; FRBR – Functional requirements for Bibliographic Records sob a orientação de Edward O’Neill; Automatic Classification Research sob a direção de Jean Godby; VIAF – Virtual International Authority File sob a orientação de Françoise Bourdon ou ainda o Terminology Services sob a tutela de Diane Vizine-Goetz.

As componentes Política/humana, Legal e Internacional incluem as políticas adotadas por cada instituições de memória no que concerne à disponibilização (ou não) da informação incluída nas suas coleções, acervos e/ou espólios bem como as leis e/ou códigos de direitos autorais pelas quais são abrangidas. Surgiram, entretanto, alguns projetos de convergência nestas áreas como é o caso das licenças Creative Commons.

Neste contexto, a interoperabilidade é tida como um dos requisitos essenciais para chegar à informação. Principalmente num cenário onde diferentes sistemas de informação partilham os mesmos objetivos na altura da recuperação da informação. Efetivamente, o utilizador quando pesquisa em ambiente web, não lhe é relevante que o que procura se encontra num arquivo, numa biblioteca ou num museu (Kirchhoff, Schweibenz e Siegleschmidt, 2008).

Cristina Cortês

Licenciatura em Documentação e Arquivística, pela Universidade de Aveiro. Pós-graduação em Ciências da Informação e da Documentação, pela Universidade Fernando Pessoa. Doutoramento em ICPD – Informação e Comunicação em Plataformas Digitais (UA|UP), sob o titulo O desafio da homogeneização normativa em instituições de memória: proposta de um modelo uniformizador e colaborativo, disponível em: http://hdl.handle.net/10773/10444.

Iniciou a sua atividade profissional nos Serviços de Documentação da Universidade de Aveiro, atuais Serviços de Bibliotecas, Informação Documental e Museologia da Universidade de Aveiro, desde 1994 até ao presente. Exerce funções nas Áreas, de Biblioteca e dos Recursos Eletrónicos e Apoio ao Utilizador.

Não deixe de consultar as Referências Bibliográficas deste texto.

____________________________

[1] Consideram-se Instituições de Memória os sistemas compreendidos pelos arquivos, bibliotecas e museus (Hjerppe, 1994, Hjørland, 2000, Kirchhoff, Schweibenz e Sieglerschmidt, 2008).

[2] De acordo com a UKOLN (2009) é um centro de excelência na gestão da informação digital, fornecendo conselhos e serviços para as comunidades das Bibliotecas, da Informação e do matrimónio cultural. Foi fundado pelo MLA – the Museums, Libraries and Archives Control, a JISC – Joint Information Systems Communittee, assim como por projetos financiados pela União Europeia. [Consult. 3 abr. 2013]. Disponível em WWW: <URL: http://www.ukoln.ac.uk/about/>. São vários os projetos e atividades desenvolvidos e podem ser consultados em WWW:<URL: http://www.ukoln.ac.uk/activities/>.

[3] Exceto o MARC 21 e o UNIMARC que correspondem a formatos internacionais para troca de metainformação, segundo a norma ISO 2709.

[4] Para mais informação consultar o XML Schema do W3C. [Consult. 4 abr. 2013]. Disponível em WWW:<URL: http://www.w3.org/XML/Schema>.

[5] É baseado nos protocolos já existentes para a Web (como o http, XML e XML schema), sendo amplamente utilizado em repositórios. Para permitir o máximo de interoperabilidade possível, o protocolo OAI-PMH, recomenda o uso do Dublin Core para estruturar a metainformação. No entanto, recebe qualquer tipo de “estrutura” desde que permita a adição XML e do XML schema (Moffat, 2006, p.29-30).

[6] Pode ser dividida em três grupos: o 1.º correspondente às camadas inferiores, relativo ao URI/Unicode, XML, XML schema e Names Space (NS) – especificações da normalização; o 2.º o 2.º composto pelo RDF/RDF schema e Ontology vocabulary – especificações de recente normalização; o 3.º composto pela Logic, Proof e Trust – especificações experimentais (Pereira, 2006).

[7] SKOS – Simple Knowledge Organization System é uma norma desenvolvida pelo W3C para a organização do conhecimento da Web, em específico dos tesauros e classificações. A cada conceito expressado através da linguagem SKOS é associada uma série de etiquetas RDF que possibilitam efetuar a descrição dos conceitos e das classes. De um modo muito simples, cada conceito SKOS é composto por: SKOS: Preflabel – para o termo preferencial; SKOS: altlabel – para os termos alternativos, não preferenciais; Relações entre os termos: BT (broader term); NT (narower term); RT (related term); SKOS: scope note; SKOS: definition; SKOS: exemple (gestão); Notas : SKOS – history note, etc.

[8] Ou Ontologia, Silva (2009, p. 3). De acordo com Currás (2005, p. 32-41) o aparecimento do termo ontologia, aplicado à área da Ciência da Informação, deve-se à introdução das tecnologias informáticas. Muitas vezes, consideradas como sinónimos de linguagens de indexação dos tesauros, as ontologias têm a sua origem na metafísica (ramo da Filosofia). Nalguns tratados de Filosofia, a ontologia é o estudo do que existe e do que assumimos que existe (o que existe em linguagem natural para linguagem controlada) para conseguir uma descrição coerente da realidade. Após a apresentação de uma panóplia de definições do termo Ontologia, Emília Currás, explica então em que difere os tesauros das ontologias – na sua estrutura. Efetivamente, nos tesauros parte-se de uma ordenação dos termos, de como são compostos, as relações hierárquicas, relações semânticas e sintáticas ao passo que, nas ontologias, a ordenação é realizada tendo em conta certas particularidades e propriedades dos termos.

[9] Na realização do modelo conceptual, os autores definiram-no como uma ontologia desenvolvida para o setor do património cultural (Santos, 2007, p. 66). Atualmente é ISO 21127:2006 para a troca de informação cultural.

Similar Posts