Entrevista Maria do Rosario Pericao

A quinta entrevista em vídeo, da iniciativa da Comissão Técnica Profissão, a associados aposentados que se destacaram na profissão e que estiveram na origem e desenvolvimento da BAD, contou com o testemunho da bibliotecária Maria do Rosário Pericão, que nasceu em 1947.

Nesta entrevista, realizada em 26 de abril de 2023, Maria do Rosário Pericão dá-nos conta dos seus primeiros contactos com o mundo das bibliotecas, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC), no âmbito do Bacharelato em Geografia pela Faculdade de Letra da Universidade de Coimbra (FLUC), iniciado em 1965 e concluído em 1971, tal como, nesse mesmo ano, o plano de estudos da Licenciatura em Geografia, por força de uma profunda reforma curricular das licenciaturas da FLUC. A entrevistada recorda a influência decisiva da sua irmã, que se encontrava a frequentar o Curso de Bibliotecário-Arquivista, como determinante para ter enveredado pelo mesmo, que frequentou entre 1971 e 1974, na FLUC.

De seguida, fala-nos do início da sua carreira, como Catalogadora de 1ª classe, na BGUC, a 12 de março de 1973, para o qual foi determinante o convite recebido nesse sentido pelo Professor Jorge Peixoto, onde se vai manter até 1 de novembro do ano seguinte, enquanto finalizava o Curso de Bibliotecário-Arquivista e o respetivo estágio obrigatório.

Discorrendo sobre a forma como, por um lado, a sua geração foi acolhida pela anterior, de quem estava afastada cerca de 15 a 20 anos, destaca: “A geração anterior, que tinha esse fosso etário em relação à nossa, e era gente que vinha de outras profissões, que já tinham sido, uns professores, outros tinham feito outras coisas e, portanto, chegam, digamos, também estavam na profissão já como segunda escolha. Com a minha geração entra sangue novo, portanto, gente muitíssimo mais nova, na casa dos vinte e poucos anos, acabados de se licenciar e com tudo o que isso significa de energia, de contestação, também, etc., e isso para a anterior geração representou uma esperança e, portanto, o que eles fizeram, e eu nunca esquecerei isso, – e até me comovo quando penso nisso -, eles acolheram-nos tão bem, não nos largavam, estavam sempre a estimular-nos, a dar-nos oportunidades, a passar-nos o testemunho, portanto, era, digamos, fomos extremamente bem recebidos. Penso que eles se sentiram mais seguros pela continuidade e pela sucessão que nós representaríamos e nós, por outro lado, tínhamos nessa época alguma humildade para perguntar e para aceitar conselhos, e isso também era importante, as duas coisas misturaram-se”.

Nesta fascinante retrospetiva do passado profissional, a nossa entrevistada relembra que, após concurso público nacional, a partir de maio de 1975, é destacada para exercer funções como Bibliotecária responsável da Biblioteca da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, cargo que desempenhou até 2008, de que nos apresenta um balanço, tendo em conta os 33 anos à frente deste serviço de informação.

No seguimento da reconstituição do seu trajeto de excelência, Maria do Rosário Pericão transmite-nos as suas impressões do período entre 1989 e 1993, em que foi Coordenadora Geral do Projeto de criação e desenvolvimento da Rede de Informação Bibliográfica da Região Centro, e Coordenadora do Projeto de gestão Informática das Bibliotecas da Universidade de Coimbra.

As oportunidades e desafios mais marcantes com que se deparou também não poderiam ficar fora deste depoimento, nomeadamente a possibilidade que teve de idealizar (física e funcionalmente) uma nova Biblioteca Universitária e ser chamada, como representante da Universidade de Coimbra, em colaboração com a Université de Nice – Sophia Antipolis e a École Nationale Supérieure des Sciences de l’Information et des Bibliothèques, em Lyon, a integrar o Projeto Comum Europeu TEMPUS-TACIS para a modernização da gestão da Biblioteca da Universidade de Estado do Turquemenistão, em Asgabade, entre 2001-2003. Deste Estado da Ásia Central recorda “uma ditadura absolutamente feroz e com um líder muito complicado, muito fanático, que estava sempre na defensiva, que tinha uma forma muito capciosa de aceitar as coisas, combinava uma coisa connosco hoje, amanhã já era outra, portanto, foi muito complicado e isso é que é interessante, como é que é possível num grupo de trabalho onde estavam franceses, havia também uma inglesa, onde estava eu, portuguesa, de um dia para o outro nós falávamos a mesma linguagem e tínhamos os mesmos objetivos de trabalho, isso é que é extraordinário. Portanto, foi uma experiência super enriquecedora”

No que se refere à valorização da profissão de bibliotecário, nos anos 70, quando iniciou a sua carreira, Maria do Rosário Pericão afirma que “os bibliotecários não eram reconhecidos nem respeitados, só se fosse pelo seu estatuto e idade, mas (…) eram muito conscientes da noção da sua missão e do que tinham de fazer e lutar para conseguir que a profissão fosse valorizada e dignificada”, acentuando que “até ao 25 de Abril, as páginas dos Cadernos dão conta de toda a batalha que foi preciso fazer, que os bibliotecários tiveram de fazer, desde o estatuto, à carreira, ou à parte remuneratória, e tudo isso, e, de facto, a carreira não era grandemente reconhecida. A minha geração, como entrou, de facto, com um grande fôlego, e pouco tempo depois se dá a mudança de regime, tinha a perfeita consciência do que era preciso fazer”, frisando nessa dinâmica os nomes de Henrique Barreto Nunes, Luís Cabral, Manuel Luís Real e Paula Fernandes Martins, seus colegas de curso.

Retratando a fundação da Associação, enfatiza que teve “o enorme privilégio de ser espetadora, empenhada, tal com as colegas da minha geração, que há pouco referi, e tantos outros, do nascimento da BAD”, especificando que esta “nasceu ainda no período da ditadura, mas representava um farol de esperança para a profissão, para todos nós, apesar de haver constrangimento e até eventuais vigilâncias que se poderiam vir a sujeitar, porque, como sabe, o direito de associação não era bem visto nem respeitado pelo regime anterior e, portanto, tomar essa decisão de criar uma associação profissional era uma coisa de uma grande ousadia. Felizmente, cerca de 4 anos e meio depois dá-se a Revolução do 25 de Abril e aí as esperanças, se nós já as tínhamos, porque aquilo, até aí eram os Cadernos que desempenhavam esse papel, de uma forma ou de outra, mas aí, com a Associação Profissional, as nossas esperanças redobraram, foi assim uma coisa perfeitamente espantosa”.

Ainda sobre a BAD, realça que “teve um papel primordial na formação dos profissionais, sobretudo dos técnicos, na valorização do estabelecimento, valorização e dignificação das carreiras, quer dos técnicos superiores, – duros combates! -, quer dos técnicos auxiliares, e também na possibilidade de virem professores estrangeiros, de criar ações de formação, etc., que nos possibilitaram, a nós, pormo-nos a par”.

Sobre a perspetiva que atualmente tem da Associação, destaca, em termos muito elogiosos, que “aqui há uns dois anos (…), eu começo a notar que a BAD estava com informações constantes e iniciativas”.

De Maria José Moura, que esteve presente na vida da Associação de forma indelével, destaca que “era o meu desassossego, porque a Maria José nunca estava quieta, era uma mulher arrebatadora, tinha uma força telúrica enorme, tinha uma alegria transbordante, estava sempre com projetos na cabeça, era uma mulher inquieta, era uma mulher irrequieta, portanto, tudo isso era um exemplo, e além de exemplo era um contágio, de maneira que era uma ativista, uma ativista de causas (…) e depois era muito determinada, muito combativa e, portanto, era um exemplo, da vida dela e dos horizontes que ela ia abrindo”.

O seu extraordinário trajeto docente e formativo, trilhado em simultâneo com a sua atividade como bibliotecária, também foi abordado nesta entrevista, mormente, no primeiro caso, como regente e assistente convidada, em diferentes momentos, de 1982 a 1997, de que se destaca o Curso de Bibliotecário-Arquivista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o Curso de Especialização em Ciências Documentais (Arquivo, Documentação e Biblioteca) da Universidade dos Açores, o Curso de Especialização em Ciências Documentais da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o Curso de Especialização em Ciências Documentais da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e o Curso de Especialização em Assuntos Culturais no Âmbito das Autarquias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. No que respeita à sua atividade formativa, foi monitora, entre 1976 e 1986, do Curso de Preparação de Técnicos Auxiliares de Bibliotecas e Serviços de Documentação, organizados pela BAD.

De igual modo, o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 também não poderiam ficar de fora desta declaração de amor às bibliotecas, destacando um texto que escreveu durante os primeiros dias da pandemia, intitulado Chronos virus, publicado no blogue “A viagem dos Argonautas”, em 6 de abril de 2022. Deste período, tão singular e complexo, elogia as “soluções super imaginativas, desde os livros ao postigo, pelo menos na minha biblioteca foi assim, os livros ao postigo para os utilizadores, houve funcionários que levavam caixotinhos de livros para catalogar em casa, depois traziam, houve gente que circulava, hoje estava um técnico de serviço, amanhã estava outro, e iam rodando”.

À questão sobre como é que vê o futuro das bibliotecas em Portugal, que conselhos gostaria de deixar a quem pretenda iniciar-se nesta área profissional e, finalmente, quais é que pensa serem os grandes riscos, desafios e oportunidades para os seus profissionais, responde, “acho que pela primeira vez na minha vida estou a ficar pessimista. Não sei se é da idade, das circunstâncias. Estou a ver do futuro da profissão com alguma preocupação, e eu não costumo ser pessimista, sou uma otimista realista”, (…) detalhando, referindo-se às universidades, “é ridículo que em 2023 possa haver menos pessoal nas bibliotecas e, sobretudo, menos bibliotecários, do que quando eu entrei para a profissão e, portanto, esvaziamento de quadros, asfixia orçamental não dotando os serviços de mais meios financeiros para a aquisição de fundo bibliográfico, e eu acho que há um estatuto a defender e que nós consumimos tantas energias, a minha geração e a anterior, consumiu tantas energias a estabelecer, a conquistar lugares nos quadros, a conquistar lugar de bibliotecário em todos os departamentos, em todas as faculdades, etc., que agora o eventual retrocesso arrepia-me. Por outro lado, segundo me é dado saber, lê-se cada vez menos. Gente nova já não lê em suporte papel, lê tudo em formato digital (…) No caso dos arquivos há uma desmaterialização enorme e daqui por uns anos não sei como é que se vai fazer a história da Administração Central, da Administração Local, das empresas, etc. (…) Eu nunca acreditei muito na morte do livro, mas agora parece-me que começo a acreditar”.

Esta entrevista finaliza com Maria do Rosário Pericão a dar-nos conta do que tem feito desde que se aposentou, quase há 15 anos, em agosto de 2008, e dos seus projetos em curso e futuros. Entre sucessos, problemas, oportunidades, desafios, mas também fracassos, apresenta-nos uma síntese, falando, também, dos seus pilares e paixões, na apaixonante viagem que começou em 1973, há 50 anos.

À distância a que se escreve este resumo, fica a certeza de mais uma entrevista que perdurará muito para além do momento em que foi efetuada e registada, pela incandescência de verbo e pensamento profundamente arrebatador, que nos deleitamos a ouvir.

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